02/02/09

Não matarás...

Saiu de casa pela manhã, bem cedo, cabisbaixo, de lágrima a pender-lhe no olhar. Não queria. Decididamente, não era o que queria fazer. Mas era isto o que lhe restava fazer, numa vida tantas vezes a parecer injusta, cruel…

Desceu o elevador, colocou-o cuidadosamente, no banco traseiro e entrou no carro. Atribuiu ao cinto apertado o sufoco que sentia no peito e à chuva a visão enevoada.

O “adeus” quase inaudível que proferiu abafou-lhe o “perdoa-me” que não gritou, enquanto lhe fazia uma última festa, o último carinho, o derradeiro abraço. “Gosto tanto de ti e deixas tanto comigo”, sussurrou… e do outro lado, respondeu-lhe silenciosamente, o olhar mais grato que alguma vez viu…

Deixou a clínica veterinária cem anos mais velho e duzentos mais pobre… Decididamente não queria tê-lo feito, mas era o que tinha de fazer, porque o amava! Não, não era um assassino!


Na outra ponta da cidade, ela saiu de casa ao raiar do dia. Mecanicamente desceu o elevador, entrou sozinha no carro e percorreu a estrada atolada de carros, sentindo-se num deserto imenso. Entrou no grande edifício e subiu ao 4º andar, pelas escadas para ganhar coragem. Entrou na sala e interiormente agradeceu a penumbra que lhe disfarçava a lágrima. Olhou-o. Continuava prostrado sobre a cama, anestesiado para não sentir a dor. Já não falava, não comia, não sentia mais que aquele tormento que se arrastava como punição de um pecado que desconhecia. Mas o coração batia, força da máquina que o obrigava a vegetar. Quanto tempo? Quanto mais tempo iria viver? Viver? E num ímpeto, teve vontade de aceder ao que tantas vezes lhe pedira.

Deixou o hospital ao fim do dia. Deixou-o entregue àquele olhar suplicante que a matava a ela também. Decididamente, não queria deixá-lo continuar mas, curiosamente, só aos animais era possível interromper tamanho sofrimento e ela não era uma assasina!

...


Amava tanto a vida, que mais não lhe restava que a eutanásia!


um enorme beijo para ti...


50 comentários:

calamity jane disse...

Sacana q m fizeste chorar

calamity jane disse...

(desculpa, não te queria chamar nomes, mas amigo de meu amigo...)

António Sabão disse...

Entendo-te! Passei pelo mesmo...
bjs

shark disse...

E que posso eu dizer-te senão que me estragas com mimos?
Cá chegou.
És uma miúda porreira, pá.

Teté disse...

Credo! Duas mágoas que todos têm medo de enfrentar, mantendo a esperança que tal nunca lhes aconteça...

Infelizmente, às vezes, acontece...

Beijoca!

Jota disse...

Dói muito...

Jinho de reconforto...

Paulo disse...

Tu seres a favor é que não entendo mas admiro-te por isso miúda.

bjs

DANTE disse...

Também tenho um animal de estimação...

Beijo Escarlate :)

impulsos disse...

Histórias comoventes que se cruzam com os nossos dias e se misturam com os nossos sentimentos ao ponto de nos fazer até... chorar.

Gostei muito!

Beijo

TM disse...

Porque a vida é para ser vivida dignamente... e quando o nosso próprio corpo nos aprisiona, a nossa alma suplica por liberdade...
(Às vezes gostava de não entender tão bem estas palavras... de não as sentir na alma...)
Será que é crime deixar alguém morrer... Será que é crime dar a um ser humano a dignidade através da morte?

osbandalhos disse...

Se os elevadores só subissem...

OnlyMe disse...

Custa muito perder os nossos amiguinhos que já fazem parte da família. Tenho dois cães actualmente e sempre tive animais desde que me lembro. Sei dar valor ao que estás a passar!

Jinhos :)

Lúcio Ferro disse...

O Texto é um pouco estranho. Tem algumas falhas estilísticas, passo a exemplar: «entrou sozinha no carro e percorreu a estrada atolada de carros», em que a repetição de «carros» funciona mal, para dizer que funciona.

No entanto, do que tenho lido dentro do género na blogo, não está nada mal; perturbante qb. Parabéns.

NunoSioux disse...

Qual é o ponto em que fazemos o lugar de Deus?

Morrer por fora, chorando morrer por dentro?

Ou morrer por dentro chorando morrer por fora......

Quero que me desliguem quando o último olhar apaixonado estiver prestes a desligar da couve (de mim)...

Mas será que quando desligarem já só tenho esse sorriso?

Enquanto há amor à esperança....

Porque a vida não vegeta (ou não devia vegetar)

Ou será que devia??

(Como me tocas escarlate)

Beijo

escarlate.due disse...

bem vinda Calamity, com ou sem nomes

escarlate.due disse...

beijo, António

escarlate.due disse...

já disseste tudo Shark.
enorme beijo para ti

escarlate.due disse...

acontecem Teté... ambas...
beijoca

escarlate.due disse...

posso reencaminhar o teu conforto para quem precisa dele, Jota?

escarlate.due disse...

nem eu tento explicar-te, Paulo
beijos

escarlate.due disse...

também tenho dois, Dante...
beijo

escarlate.due disse...

histórias que são mais que histórias, Impulsos.
beijo

escarlate.due disse...

às vezes também gostava de não entender... TM

escarlate.due disse...

se... OsBandalhos

escarlate.due disse...

OnlyMe posso reencaminhar as tuas palavras para alguém que precisa delas?
jinhos

escarlate.due disse...

aqui tudo é um pouco estranho a começar pela autora, Lúcio.
grata pelo seu "exemplar" tem razão a repetição pode soar mal. mas sabe, não sou e não pretendo ser escritora, os textos aqui inscritos são elaborados nos pequenos intervalos daquele que é o meu trabalho e pretendem apenas transmitir emoções, descrever sentires, discutir temas ou simplesmente brincar sem qualquer intenção literária. pelo que aconselho-o a ler muito mais na "blogo" onde encontrará o que procura.
obrigada pelo seu comentário

escarlate.due disse...

não, Nuno, não devia! tenho a certeza que não devia! e nem sempre a esperança basta...
o toque é reciproco e tu sabes porquê.
beijo

Miriamdomar disse...

Fiquei com um nó na garganta!
Só de pensar que um dia, posso ter de passar por essa situação!
Seja com um animal ,seja com um ser humano!
Eu neste momento ,não sei como está a lei portuguesa, em relação á eutanásia!Mas parece-me que só se pode fazer isso ,se o doente, tiver deixado uma
autorização por escrito para isso!
Bjs

escarlate.due disse...

legislar sobre isso não é fácil, Miriam, tal como não é fácil a decisão a ser tomada
beijo

Dias disse...

...

Abraço muito forte

escarlate.due disse...

posso reencaminhar esse abraço, Dias?

Sam disse...

Aqui na aldeia usamos um saco plástico e vamos ao rio, nada dessas coisas "fancies" de veterinários da cidade!
lol

ai qu'ela me bai bater!
beijo doce!

escarlate.due disse...

bater não chega, Sam, mas passar-te com um camião por cima, já não será má ideia!!

tu não consegues, pois não, Sam?!
doce beijo puto

Salto-Alto disse...

Foi dos poucos textos que me emocionou...

Pedro Barata disse...

... Beijinhos

bjecas disse...

Sei muito bem do que falas.
Felizmente, ninguém meu.

Jinhos pá

\m/

mfc disse...

Temho uma Micas com 14 anos... já mal vê e não ouve nada, mas continua a ser a alegria da casa.
Nem quero imaginar que esse dia vai chegar!
Um grande abraço e um beijo enorme para ti.

vício disse...

uma escolha entre morrer e ir morrendo!
era tudo uma questão de tempo e quanto mais durasse, mais durava também o sofrimento.

escarlate.due disse...

é das situações que mais me emociona, Saltinho...

Se me permitires (e porque sei que simpaticamente te disponibilizas sempre para uma ajudinha) peço o teu contributo para responder à Miriam, porque a tua resposta será muito mais fiavel que a minha.

beijinhos

escarlate.due disse...

posso reencaminhar esse beijinho em forma de abraço para alguém que precisa, Pedro?

escarlate.due disse...

pois sabes...
mas tomara que nunca o saibas...
beijo, Bjecas

escarlate.due disse...

não penes MFC.
o beijo e o abraço posso reencaminhar?

escarlate.due disse...

é isso Vicio, não é 1 escolha entre vida e morte mas entre morte e morte

francis disse...

no comments

Miguel disse...

coisas da vida!

ABC & BJS :D

escarlate.due disse...

pois...

pois é aquela palavra que serve para tudo, Francis...

escarlate.due disse...

sem dúvida, Miguel, coisas da vida...

ines disse...

Só quem os tem!

b&abraços

escarlate.due disse...

quem os tem e quem vive... Inês

Emmy disse...

A opção em causa dói muito por dentro mas dói mais termos que assistir ao sofrimento constante de alguém - 4 ou 2 pernas (ou patas, como preferirem...) Infelizmente, já passámos por uma situação assim e sabemos o quão angustiante se torna a decisão...Vale o peso de uma vida já celebrada e de todas as recordações que ficam.
Choramos ao ler...Obrigada por partilhar.