







a quatro mãos
Ainda prefiro os que se tem acordada, paridos da macabra fusão entre razão e emoção, mesmo quando ilusão ou nunca concretizados...
Dos castelos colhe as pedras polidas pelo tempo, dos sonhos exclui os pesadelos gastos na almofada, na memória arruma as lembranças em baús com bolas de naftalina para que as traças não as corroam. Na praça pública silencia as palavras ocultas por espessos véus e (a re) volta ao abrigo que avalia como refúgio de tempestades. Calmante. Tranquilizante. Ou…
Contornos ocultos de verdades debilmente veladas, feitas de obscuras realidades (des?) mentidas, em amálgamas de afirmações, em rebuscadas frases estudadas, repetidas, gastas, entroncadas em raízes mal cuidadas. Desfloradas, ou…
Indagada a alma retorcida, escondida no corpo contorcido. Violado. Violada. Perde-se. Reencontra-se. Aconchega-se à força de(vol)vida. Esfuma-se no maço consumido. Ou…
Regressa à galáxia perfeita da imaginação sobrevoando a felicidade sem lhe tocar. Quebra-se o feitiço como quem quebra uma garrafa (isso não). Enchem-se os pulmões de gases tóxicos a colorir o preto e branco da nuvem em que se senta sem reflectir que o amor não é para ser palrado, mas acarinhado. E a criança mimada esvoaça como pássaro engaiolado nas próprias asas desfeitas, numa liberdade fictícia, ilusória, desperdiçada, ou…
Regressa a serei ao oceano onde as pérolas que lhe brotam dos olhos se desfazem nas gotas da maré. Reconhece as escamas perdidas, as barbatanas feridas. Os nós apertados da corda que lhe sufocou as guelras numa terra onde o líquido é opaco, viscoso, infectado. Nas profundezas da água límpida lava o corpo como quem desinfecta a alma e deita-se na concha que se fecha como encerrada foi a magia, ou…
Afogam nas areias movediças da praia, a saudade. E perdem(-se) no interior da sua própria voz. Ânsia abafada. Num tempo que se esgueira da palma da mão. Ou...
Perdura a ilusão. A confusão. Atroz paixão. Qui ça quimera. Mórbida esperança. Fantasia. Utopia. Ou…
...
Gosto. É claro que gosto. Atrai-me sobejamente. Cativa-me. Extasia-me.
E invejo. É claro que invejo a capacidade de intolerância - não me apetece chamar-lhe estupidez, seria demasiado cruel (cruel?). ahhh que crueldade a daqueles que ainda se encontram em fase de aprendizagem. Ignorantes. Inoperantes.
Gosto, é claro que gosto da eficiência de uma boa buzinadela. Desentope o caminho em menos de nada. Não? Ahhh pensei que sim. Mas pelo menos poupa-me o rádio do carro, posso desligá-lo e ficar apenas com a melodia (?) vinda de fora. Aaahhhh que calmante. Tranquilizante.
Tranquila, observo o arrancar estridente. Ai como eu gostava de ser exímio volante. Galgar passeio, roçar o ventre do transeunte, sem atrapalhação, sem hesitação. Passar a milímetros do L sem o (se) esmurrar. Suicidar. Ser o maior. Que grande (mesmo que não seja grande coisa). E quase esborracha a criança na passadeira que com o puxão da mãe se estatela no chão. Raios parta, porque chora o miúdo? Devia era tê-lo morto que há população a mais na cidade. Assassino? Nãããã, impressão minha.
Quero ter a mesma raiva dedicada ao pobre infeliz que no meio da atrapalhação de não nascer ensinado, deixa o carro ir abaixo à entrada da rotunda. Devia saber conduzir na perfeição mesmo antes de se inscrever na porcaria da escola de condução.
Olho o relógio, vinte para as nove. Devia ter deixado a cama mais tarde. Conseguiria agora irritar-me, gesticular e desenvolver o meu dicionário insólito de palavras enternecedoras como “cabrão”, frases amáveis de “filho da puta”.
E quando finalmente arranca o tal veículo L (L de lição? Quem sabe nº 1.. ai não deviam existir lições nº 1. Maldição), passo-o enquanto observo enternecida (que estúpida) a carinha corada do jovem ao volante. “calma, rapaz, aposto que daqui a uns meses já com documento comprovativo de doutoramento de parvalhão, serás tão insigne condutor, notável ameaçador, distinto reprodutor de insultos absurdos. Tem calma rapaz. Tem calma, já falta pouco para seres mais um famoso acrobata e eu só lamento não ter sabido neste momento, formar na perfeição mais um distinto instinto assassino.” Ahhhh quem me dera ser tão boa formadora (formar? Mas quem me autoriza a formar? Deformar. Deformado como o anormal…) como o anormal que me atrai sobejamente, me cativa me extasia do pedestal da sua sabedoria na vasta intolerância – porque não me apetece chamar-lhe estupidez – perante quem ousa tentar aprender porque ainda não sabe ser um deformado perfeito anormal. Civilizado. Aaahhhh como eu gosto desta civilização. Atrai-me. Cativa-me. Extasia-me.
Ai que belo começo de dia. Que bom humor macabro. Que bem me faz esta santa barbárie. Quão civilizados somos. Uau!
Vês a lua lá longe? Intocável.
Não quero ser uma lua intocável…
Vês os monstrinhos nas árvores? Pirilampos. Cisne do rio.
Como parte de mim. De ti? Não quero agarrá-los, apenas admirá-los…
Vês as pedras do castelo? Umas sobre as outras.
Num equilíbrio permanente. Premente. Não quero derrubá-las…
Vês as estrelas cintilantes no céu escuro? Vês o relâmpago na noite calma? Vês o vermelho do Sol que se esconde?
Vês-me?...
Observo-te enquanto dormes. Olho-te acordado. Examino-te os contornos. Oiço-te as palavras. Penetro-te o olhar em busca de certezas. Nada é certo. Assustam-me as faíscas. Temidas…
Espio-te os sentidos. Sentimentos. Espreito-te. Observo-te. Reconheço-te. Conheço-me. Admiro-te as mãos…
Percorrem-me o corpo como exploradores em mares desconhecidos. Tornam mágicos os momentos. Em movimentos. Adoçam o olhar, aquecem a pele, abrasam-me como brasa de lareira. Penetram-me como flechas de cupidos. Sentidos…
Não são mãos de deus. Não são mãos de dono. Não são mãos inquebráveis. Razoáveis. De razão. A tua e a minha. Razoáveis. Como tu e eu…
Vês a lua lá longe? Intocável. Só quero vê-la…
Vês os monstrinhos e o cisne. Mais ninguém vê. Só quero que vejas… só quero vê-lo…
Vês o castelo a balançar? Não ruiu, não quebrou, não desmoronou. Só quero abrigar-me. Segurar-me…
Vês? Vês-me? Só quero que nos vejas…
Quero. Quero-te. Mas mais que tudo quero-me…
Há momentos que nos marcam para sempre, como há pessoas que ao cruzarem o nosso caminho o tornam irremediavelmente diferente, mas também há espaços que nos colam como lapas. Que mesmo que quiséssemos não seriamos capazes de abandonar ou esquecer. Não? Esquecer… Recordar… Perpetuar … as voltas que uma memória dá… pedaço a pedaço... como pedaços de nós.
Como se tornara hábito nos últimos meses, lá estava ele comodamente instalado no seu ninho inundado de líquido e ternura.
Cruzou as pernas, espreguiçou-se tocando com a ponta dos dedos a parede da cavidade que o envolvia. A casa já dificilmente suportava o seu tamanho. Nem se apercebera como crescera desde que minúsculo ali se alojara.
Olhou em redor, ninguém. Mais uma vez não havia ninguém. Já começava a fartar-se daquele mundo solitário onde nem uma alminha lhe dizia bom dia, nem um parceiro para jogar uma cartada, nem um amigo para o acompanhar numa bebida gelada nos dias quentes. E bebida não faltava por ali. Tudo era fluido excepto aquele cordão, espesso, comprido, que o ligava sabe-se lá onde, mas que lhe era vital.
Hoje curiosamente o cordão incomodava-o. As paredes pareciam comprimir-se, apertavam-no como se o sufocassem. As águas agitavam-se como marés vivas em oceano tempestuoso E o pequeno-almoço não havia meio de chegar…
Vasculhou em redor. Nada. Procurou mais acima. Nada. Deitou-se mas continuava desconfortável e a fome apertava-lhe o estômago. Chuchou no dedo polegar, o mais gordinho da mão esquerda. Esticou os pés até sentir a resistência sólida da parede. A ondulação fê-lo balançar sem ponto de apoio seguro. Rebolou numa cambalhota desequilibrada e viu o seu ninho de pernas para o ar.
Repentinamente, a água escoou como se alguém tivesse aberto um ralo ou furado um balão. Mais rápido. Cada vez mais rápido. Alguém estava a roubar-lhe o seu mar. Alguém invadia o seu habitat. Quem se atrevia? Que queriam dali? Escorregou levemente e descobriu a pequena frecha. Espreitou. As paredes comprimiram-se fortemente como que a expulsá-lo da sua própria toca. O seu mundo tornou-se pequeno, ínfimo, insuportável. E a luz intensa que o fitava através da ruptura pareceu atraí-lo, puxá-lo, sugá-lo.
Expulsou-o. 11:00am ouviu-se algures do além num som rouco, desconhecido, aterrorizante.
Atordoado. Perturbado. Desnorteado. Assustado. Confuso.
Desalojado. Esfomeado. Agredido. Abriu a boca e deu liberdade aos pulmões para o mais sonoro protesto que alguma vez patenteou.
AAAHHH finalmente um pequeno-almoço! Diferente do habitual. Uma outra consistência. Um novo paladar. Num recipiente macio que lhe inundava a boca. Acalmou. Deliciou-se. E quando os dedos suaves lhe acariciaram ternamente a face, esboçou um projecto de sorriso, cerrou os olhos e permitiu-se adormecer. Aconchegado no seio que o alimentava, envolvido no olhar que o tranquilizava e nos lábios que carinhosamente pronunciavam filho (um dia muitos anos luz transcorridos, haveria de alcançar o significado...).
Talvez não seja assim tão mau este novo mundinho... - sonhou.
FELIZ ANIVERSÁRIO, TERZO
12 de Setembro de 2009
“Um dia…
Há muitos e muitos anos luz, quando ainda não existia terra e nem mar, ela ziguezagueava por entre destroços de nada e tudo.
O céu escurecera como breu, quebrara-se em pedaços cadentes.
Atemorizada tentou esconder-se por trás de coisa nenhuma, por baixo de si mesma.
Sabia, sentia, adivinhava, que iria morrer espalmada, sob aquele outrora azul.
Não gritou, não esbracejou, nem chorou, só tremeu.
Outro dia…
Há muitos e muitos anos luz, quando ainda não existia paraíso e nem inferno, num tempo de ninguém, ele sorridentemente se arvorava em anjo de diabo, ou diabo de anjo.
Sem rosto, sem voz, sem nome.
Serenamente viajava pelo espaço transparente”
E mais um dia…
Eram assim um do outro há dois mil anos ou quase, saboreando o tesouro da eternidade do auge.
No sufoco do tempo que os separa, na ânsia do abraço que trocam, na sofreguidão com que se beijam, no carinho com que se exploram.
Nas palavras que calam, nas outras que proferem, nos erros que cometem e nos momentos inolvidáveis, eternos como eles, tão ternos como eles…
Com rosto, com voz, com nome.
Viajam serenamente na agitação que os assola, os derrete, os queima e os une…
como nós apertados em pulseiras, há dois mil anos ou quase…
that’s why I’m gonna spend my life with you
... que suplicamos à vida não nos roube à memória…
Outros há que imploramos nos deixe esquecer…
Mas uns e outros são, no fundo, a nossa vida,
A nossa razão de ser…
Somos nós…
Nós…
Como nós de pulseiras…
Mas afinal… Porquê?
Boa pergunta...
É mais bonito que os outros?
Talvez só nos meus olhos...
É mais sábio?
Não tenho a certeza...
É mais inteligente?
Não lhe medi o QI.
É mais charmoso?
Talvez sim, talvez não...
Mas então o que tem de tão especial?
Nada! Tudo! Sei lá!
Mas então… porquê?
:) olha, sabes aquela resposta que os putos dão quando são pequenos: porque sim! (ou porque não!) E tu perguntas: mas porquê? E eles repetem: porque sim! (ou porque não!) Eles não conseguem explicar mas eles sabem, não encontram razão, não sabem as palavras mas eles têm a certeza que sim (ou que não)!
Mãe, eu não deixei cá as minhas sapatilhas brancas?
Sim…
Mas não estão no armário…
Elas não andam sozinhas.
Ok ok onde estão?
Varanda…?
Mãe isso já foi no fim-de-semana passado!
É bem provável…
…
MÃEEEE
Sim…?
As sapatilhas têm os atacadores estragados.
É bem possível, elas não andam sozinhas mas as gatas sim, filho, com a agravante que têm dentes e garras.
Gosto da paz das minhas paredes. Da tranquilidade do meu silêncio.
Refresca-me.
Conforta-me.
Gosto da copa da árvore por onde passam frechas de luz cintilante.
Que me tranquilizam.
Aceitam.
Gosto do brilho do mar e dos golfinhos.
Atraem-me.
Acalmam-me.
Ensinam-me…
Golfinhos…
Sempre gostei de golfinhos…
Fechou a janela para que o vento não entrasse. Ou o tempo não saísse…
Sentou-se no cadeirão. Aquele. O tal. Recostou-se de cabeça reclinada, o cérebro ausentou-se.
Passou tanto tempo… aprendeu ao longo dos séculos a esconder sentimentos. Camuflá-los. Abrigá-los de tempestades. Demorou. Penou. Mas aprendeu. No sufoco da lágrima que não escorreu. No silêncio da palavra que não proferiu. Na ausência do acto que não aconteceu. Agora… o grisalho da barba cobre-lhe a face e a nuca. As mãos enrugadas agarram o copo. Vazio. Agora… será tarde demais para reaprender. Habituou-se. Habitou-se naquele espaço só seu, onde monstros estranhos se baloiçam em amena dança singular, que só ele vê.
Agora… o tempo passou. Marcou… o tempo. Sempre o maldito tempo…
E ele daria a vida por um momento…
Lá fora, o vento…
Não me peças para falar, não me obrigues a calar. Não me faças morrer no que não quero reviver. Não me atormentes, não me perturbes, não me abanes a tranquilidade. Não me quebres, não me partas, não me abras as fendas coladas. Não me imponhas, não te anules. Não te fundas em mim. Não grites, não repitas, não te embriagues em palavras inúteis. Como ébrio impotente. Basta-te ser, basta-te estar, basto-me assim no silêncio inebriante de quem sente. Em paz. Sem falar nem calar.
Partes giras de pintar a casa:
- estes gajos brincam mais cóquepintam
-guerra de tintas é buédafixe
- nariz pintado dá-nos um ar divertido
- nunca tinha feito desenhos nas costas de outrem…
- Não sabia que as gatas tinham jeito para pintura rupestre pelo chão
- meter o pé na lata da tinta ao sair do banho… não tem piada (por acaso até tem…)
- As cervejas estavam bem geladinhas
Partes chatas de pintar a casa:
- isto parece uma feira e nunca mais acaba
- calha-me sempre a mim limpar a javardice
-aquele laranja choque só lá foi à pistola... não há nada que uma boa arma não resolva
- as alergias saltaram todas e a voz foi-se
Partes estranhas de pintar a casa:
Chamarem-nos malucos só porque quisemos 1 parede preta…
- chamarem-nos doidos só porque a nossa casa não obedece aos gostos dos outros…
Eu sou capaz de revirar o mundo. Pontapear a nuvem. Eu sou capaz de agarrar o sol e esmiuçar-lhe o avesso. Agitar as águas no mar, acalmar a vaga, agarrar a onda. Eu sou capaz de puxar estacas, plantar árvores. E arrancá-las pela raiz. Sou capaz de atingir a velocidade da luz para derrubar barreiras. Ultrapassar-me e não me deixar deter. Sou capaz de voar ao cume da montanha. E do sonho. No sono. Eu sou capaz de gritar tão alto, tão forte, até ensurdecer. Perder a voz pela razão. Porque a minha vontade me faz nascer, renascer, viver. E tornar-me imortal. Eu sou capaz de expulsar, evadir-me, até de mim. Entrar-me pelas entranhas até ao mais profundo eu. Eu sou capaz de me revoltar, fazer calar, cegar, emudecer, na mais pura surdez de quem quer vencer. Eu sou capaz de caminhar sobre a Lua, sobre Marte, sobre Vénus. Sobre o fogo que arde. Sem se ver. Eu só não sou capaz (não quero, não posso, não sei...) de me perder…
de mim
Deu-lhe imagens de ternura, qual Colombina e Arlequim. De desejo, de carinho, da paixão que sufocou.
Nessa noite choveram sorrisos. Sorrisos de riso em olhos de água. Na sede que não saciou.
Deu-lhe imagens ocas, vazias, sem dó, que devorou, consumiu, arrecadou.
Nessa noite trovejaram raios. Iluminaram-se os céus de relâmpagos estridentes. Enlutou.
De olhos cerrados sonhou. Voou como pássaro liberto em céu aberto. Vagueou.
Sem futuro, sem além, sem o dia após a noite. Guardou. Fechou a cadeado. Calou. Silenciou.
Acorda Colombina nos braços de Pierrot roubado a Arlequim.
É sonho?
Não!
É onda errante em mar submerso do azul estrelado, num castelo inacabado na areia de mim.
E de ti…
“I dream of rain
I dream of gardens in the desert sand
I wake in pain
I dream of love as time runs through my hand
I dream of fire
Those dreams are tied to a horse that will never tire
And in the flames
Her shadows play in the shape of a man's desire”