15/11/09

ricordare...











momenti ...


11/11/09

sonhos...

Ainda prefiro os que se tem acordada, paridos da macabra fusão entre razão e emoção, mesmo quando ilusão ou nunca concretizados...



10/11/09

Acontece...

Dos castelos colhe as pedras polidas pelo tempo, dos sonhos exclui os pesadelos gastos na almofada, na memória arruma as lembranças em baús com bolas de naftalina para que as traças não as corroam. Na praça pública silencia as palavras ocultas por espessos véus e (a re) volta ao abrigo que avalia como refúgio de tempestades. Calmante. Tranquilizante. Ou…

Contornos ocultos de verdades debilmente veladas, feitas de obscuras realidades (des?) mentidas, em amálgamas de afirmações, em rebuscadas frases estudadas, repetidas, gastas, entroncadas em raízes mal cuidadas. Desfloradas, ou…

Indagada a alma retorcida, escondida no corpo contorcido. Violado. Violada. Perde-se. Reencontra-se. Aconchega-se à força de(vol)vida. Esfuma-se no maço consumido. Ou…

Regressa à galáxia perfeita da imaginação sobrevoando a felicidade sem lhe tocar. Quebra-se o feitiço como quem quebra uma garrafa (isso não). Enchem-se os pulmões de gases tóxicos a colorir o preto e branco da nuvem em que se senta sem reflectir que o amor não é para ser palrado, mas acarinhado. E a criança mimada esvoaça como pássaro engaiolado nas próprias asas desfeitas, numa liberdade fictícia, ilusória, desperdiçada, ou…

Regressa a serei ao oceano onde as pérolas que lhe brotam dos olhos se desfazem nas gotas da maré. Reconhece as escamas perdidas, as barbatanas feridas. Os nós apertados da corda que lhe sufocou as guelras numa terra onde o líquido é opaco, viscoso, infectado. Nas profundezas da água límpida lava o corpo como quem desinfecta a alma e deita-se na concha que se fecha como encerrada foi a magia, ou…

Afogam nas areias movediças da praia, a saudade. E perdem(-se) no interior da sua própria voz. Ânsia abafada. Num tempo que se esgueira da palma da mão. Ou...

Perdura a ilusão. A confusão. Atroz paixão. Qui ça quimera. Mórbida esperança. Fantasia. Utopia. Ou…


...


03/11/09

Aconteceu...

« Nas minas de S.Domingos
Morreram quatro mineiros, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu... »

Isabel costurava... a velha máquina ainda trabalhava. Todos lhe diziam que era boa - é Singer, Isabel!! - como se o movimento repetitivo de um pé estragado pelo tempo, carregando furiosamente num pedal desgastado pelo uso, desse á sua companheira de sempre outro nome que não fosse Trabalho. Não é Singer, nem singela. É trabalho. Com quatro filhos a assoarem-se ás suas saias, com um homem colocado doze horas - dia sim dia não - no mais fundo poço da escuridão, Isabel costurava. E ia trauteando a velha canção...

«
Oh Senhora Santa Bárbara
Padroeira dos mineiros, vê lá
Vê lá companheiro
Vê lá como venho eu... »

António arrancava terra á Terra. Sacrílego, profano... no mais fundo poço da escuridão, António com uma pilha á cabeça e uma singela - não Singer -picareta na mão, avançava e avançava, a terra á Terra arrancava, e quando a força já esgotada, lhe implorava uma pausa... António dizia não!! Tinha Isabel e quatro filhos. António ria-se só de recordar quatro pequenos diabos a assoarem-se ás saias da mãe. Que seja escura esta terra... de bom grado lhe chamarei Inferno! Que venha o próprio Belzebu... se me sento só descanso o cú!!! Mais umas horas e dispo as saias cheia de ranho da minha Isabel!! Ah... filho dum cabrão dum mineiro que a terra pariu mas não há-de enterrar! Nã senhora!! Amo tanto esta terra que a hei-de esgravatar!

Isabel ficou lívida...seriam duas da manhã ou outra hora qualquer.. parou o Tempo para Isabel e para outra qualquer mulher. Todo aquele povoado, por São Domingos abençoado ameaçava ruir. Nem Santa Bárbara - a tal padroeira - poderia evitar: abatera uma barreira!! Quatro homens soterrados!! Ainda há esperança, ainda há esperança... Quatro vidas enterradas... Quatro homens isolados!! Abateu uma barreira, Isabel. A barreira que colocará o teu filho mais velho nas minas que devoraram o seu pai. Deixa-o assoar uma vez mais nas tuas saias... desta vez não é ranho. São lágrimas.

Nas minas de S.João
Morreram quatro mineiros, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...

Eu trago a camisa rota
E o sangue dum camarada, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...

Oh Senhora Santa Bárbara
Padroeira dos mineiros, vê lá
Vê lá companheiro
Vê lá como venho eu...

Eu trago a cabeça aberta
La la la la la la la la Abateu uma barreira, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...

Eu trago a camisa rota
E o sangue dum camarada, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...

Oh Senhora Santa Bárbara
Padroeira dos mineiros, vê lá
Vê lá companheiro
Vê lá como venho eu...

26/10/09

a caminho da civilização

Gosto. É claro que gosto. Atrai-me sobejamente. Cativa-me. Extasia-me.

E invejo. É claro que invejo a capacidade de intolerância - não me apetece chamar-lhe estupidez, seria demasiado cruel (cruel?). ahhh que crueldade a daqueles que ainda se encontram em fase de aprendizagem. Ignorantes. Inoperantes.

Gosto, é claro que gosto da eficiência de uma boa buzinadela. Desentope o caminho em menos de nada. Não? Ahhh pensei que sim. Mas pelo menos poupa-me o rádio do carro, posso desligá-lo e ficar apenas com a melodia (?) vinda de fora. Aaahhhh que calmante. Tranquilizante.

Tranquila, observo o arrancar estridente. Ai como eu gostava de ser exímio volante. Galgar passeio, roçar o ventre do transeunte, sem atrapalhação, sem hesitação. Passar a milímetros do L sem o (se) esmurrar. Suicidar. Ser o maior. Que grande (mesmo que não seja grande coisa). E quase esborracha a criança na passadeira que com o puxão da mãe se estatela no chão. Raios parta, porque chora o miúdo? Devia era tê-lo morto que há população a mais na cidade. Assassino? Nãããã, impressão minha.

Quero ter a mesma raiva dedicada ao pobre infeliz que no meio da atrapalhação de não nascer ensinado, deixa o carro ir abaixo à entrada da rotunda. Devia saber conduzir na perfeição mesmo antes de se inscrever na porcaria da escola de condução.

Olho o relógio, vinte para as nove. Devia ter deixado a cama mais tarde. Conseguiria agora irritar-me, gesticular e desenvolver o meu dicionário insólito de palavras enternecedoras como “cabrão”, frases amáveis de “filho da puta”.

E quando finalmente arranca o tal veículo L (L de lição? Quem sabe nº 1.. ai não deviam existir lições nº 1. Maldição), passo-o enquanto observo enternecida (que estúpida) a carinha corada do jovem ao volante. “calma, rapaz, aposto que daqui a uns meses já com documento comprovativo de doutoramento de parvalhão, serás tão insigne condutor, notável ameaçador, distinto reprodutor de insultos absurdos. Tem calma rapaz. Tem calma, já falta pouco para seres mais um famoso acrobata e eu só lamento não ter sabido neste momento, formar na perfeição mais um distinto instinto assassino.” Ahhhh quem me dera ser tão boa formadora (formar? Mas quem me autoriza a formar? Deformar. Deformado como o anormal…) como o anormal que me atrai sobejamente, me cativa me extasia do pedestal da sua sabedoria na vasta intolerância – porque não me apetece chamar-lhe estupidez – perante quem ousa tentar aprender porque ainda não sabe ser um deformado perfeito anormal. Civilizado. Aaahhhh como eu gosto desta civilização. Atrai-me. Cativa-me. Extasia-me.

Ai que belo começo de dia. Que bom humor macabro. Que bem me faz esta santa barbárie. Quão civilizados somos. Uau!



24/10/09

per te... e per me...

Vês a lua lá longe? Intocável.

Não quero ser uma lua intocável…

Vês os monstrinhos nas árvores? Pirilampos. Cisne do rio.

Como parte de mim. De ti? Não quero agarrá-los, apenas admirá-los…

Vês as pedras do castelo? Umas sobre as outras.

Num equilíbrio permanente. Premente. Não quero derrubá-las…

Vês as estrelas cintilantes no céu escuro? Vês o relâmpago na noite calma? Vês o vermelho do Sol que se esconde?

Vês-me?...

Observo-te enquanto dormes. Olho-te acordado. Examino-te os contornos. Oiço-te as palavras. Penetro-te o olhar em busca de certezas. Nada é certo. Assustam-me as faíscas. Temidas…

Espio-te os sentidos. Sentimentos. Espreito-te. Observo-te. Reconheço-te. Conheço-me. Admiro-te as mãos…

Percorrem-me o corpo como exploradores em mares desconhecidos. Tornam mágicos os momentos. Em movimentos. Adoçam o olhar, aquecem a pele, abrasam-me como brasa de lareira. Penetram-me como flechas de cupidos. Sentidos…

Não são mãos de deus. Não são mãos de dono. Não são mãos inquebráveis. Razoáveis. De razão. A tua e a minha. Razoáveis. Como tu e eu…

Vês a lua lá longe? Intocável. Só quero vê-la…

Vês os monstrinhos e o cisne. Mais ninguém vê. Só quero que vejas… só quero vê-lo…

Vês o castelo a balançar? Não ruiu, não quebrou, não desmoronou. Só quero abrigar-me. Segurar-me…

Vês? Vês-me? Só quero que nos vejas…

Quero. Quero-te. Mas mais que tudo quero-me…



contigo...


25/09/09

Hoje

Estava escrito há muito tempo. Há tempo demais, talvez. Ou poderia ter escrito hoje. E porque não amanhã?... Nem o tempo interfere com o que está gravado, porque não lhe pertence. Quando nem eu me pertenço... quando se vê o mundo a preto e branco - e não nos pertencemos - não somos. Estamos. Aqui. Aí, talvez, se a alguém interessar. Mas eu gostava de estar ali. Onde as cores nasciam. Colorir um rosto. Quando não se vê que o céu é azul, quando o próprio azul é apenas uma palavra de quatro letras, e porque alguém definiu que o azul seria « azul »... porque não hei-de estar num mundo a preto e branco e saber o que é a cor apenas quando te olho, profundamente. Intensamente. Absorto. Morto. Num mundo a preto e branco. Alguém definiu este dia como sendo « 25 de Setembro de 2009 ». Foi decerto alguém que nunca vislumbrou cores... Porque não é possivel contar assim, friamente, uma vida. Uma questão. Um sorriso. Um receio. Uma dúvida. Desmentida. Um tremor. Um tremer. Um espasmo. Um orgasmo. Uma raiva. Um ciúme. Uma ternura. Desmedida. Um torpor. Enfim, amor.. uma vida.

Estava escrito há muito tempo. Há tempo demais, decerto. Mas ignoras que foi escrito hoje e amanhã, talvez. O mundo continua preto e branco e entre nós não há histórias que dizem bem baixinho « era uma vez ». Porque eu grito, sabias? Sabias ou sabes? Ou soubeste? E tiveste... morreste, então.

Foi escrito agora e é tudo o que precisas saber.

18/09/09

"Pedaços de nós"

Há momentos que nos marcam para sempre, como há pessoas que ao cruzarem o nosso caminho o tornam irremediavelmente diferente, mas também há espaços que nos colam como lapas. Que mesmo que quiséssemos não seriamos capazes de abandonar ou esquecer. Não? Esquecer… Recordar… Perpetuar … as voltas que uma memória dá… pedaço a pedaço... como pedaços de nós.

PARABÉNS Å®t

obrigada...


15/09/09

Dos castelos

Vendes algas e sonhos e dás toda a tua vida. Estranha dádiva, minha querida. E a força - a tua - enorme... sentia-te frágil e nunca te imaginei a carregar pedras. Pesadas. Pequenas esfinges que teimas em levantar, sempre que aquele castelo receia ser engolido, numa onda gigante, nascida lá longe, num tsunami sempiterno... mas nada desmorona o que com coragem construiste, nada desaba o que com ternura decoras - é aí, aí, o espaço onde agora moras - e por cada onda infeliz vem a tua força tão pungente - porque comove - vem uma nova pedra a ser colocada no castelo de areia que o mar levou, deixando uma alga no seu lugar. Já não é na areia que constróis. Fazes uma fortaleza tão intensa que pode quebrar-se contra ela a água - pode colar-se nela a alga - que ela desafia agora plena de certezas, ondas, algas e sonhos. E quase oiço um múrmurio distante: « atrevam-se a derrubar-me ». Retiras algas e vives sonhos, sentes dúvidas e lanças dádivas, pontapeias as nuvens e gritas - triunfante e orgulhosa - que esse castelo é teu e não se renderá. Porque é eterno. Como tu. Não terno. Como tu.

Vendes algas e sonhos e dás toda a tua vida. Deixa aquelas pedras mais robustas para mim. Sim, claro que podes bem com elas. Mas como me dás as algas e fazes-me sonhar, como a mim nada vendes e fazes da vida uma dádiva... sem dúvida que algumas terei que carregar.

( Gosto de contemplar o castelo, mesmo ao longe... nem os deuses o poderiam inventar...)

12/09/09

11:00am há dois mil anos ou quase...

Como se tornara hábito nos últimos meses, lá estava ele comodamente instalado no seu ninho inundado de líquido e ternura.

Cruzou as pernas, espreguiçou-se tocando com a ponta dos dedos a parede da cavidade que o envolvia. A casa já dificilmente suportava o seu tamanho. Nem se apercebera como crescera desde que minúsculo ali se alojara.

Olhou em redor, ninguém. Mais uma vez não havia ninguém. Já começava a fartar-se daquele mundo solitário onde nem uma alminha lhe dizia bom dia, nem um parceiro para jogar uma cartada, nem um amigo para o acompanhar numa bebida gelada nos dias quentes. E bebida não faltava por ali. Tudo era fluido excepto aquele cordão, espesso, comprido, que o ligava sabe-se lá onde, mas que lhe era vital.

Hoje curiosamente o cordão incomodava-o. As paredes pareciam comprimir-se, apertavam-no como se o sufocassem. As águas agitavam-se como marés vivas em oceano tempestuoso E o pequeno-almoço não havia meio de chegar…

Vasculhou em redor. Nada. Procurou mais acima. Nada. Deitou-se mas continuava desconfortável e a fome apertava-lhe o estômago. Chuchou no dedo polegar, o mais gordinho da mão esquerda. Esticou os pés até sentir a resistência sólida da parede. A ondulação fê-lo balançar sem ponto de apoio seguro. Rebolou numa cambalhota desequilibrada e viu o seu ninho de pernas para o ar.

Repentinamente, a água escoou como se alguém tivesse aberto um ralo ou furado um balão. Mais rápido. Cada vez mais rápido. Alguém estava a roubar-lhe o seu mar. Alguém invadia o seu habitat. Quem se atrevia? Que queriam dali? Escorregou levemente e descobriu a pequena frecha. Espreitou. As paredes comprimiram-se fortemente como que a expulsá-lo da sua própria toca. O seu mundo tornou-se pequeno, ínfimo, insuportável. E a luz intensa que o fitava através da ruptura pareceu atraí-lo, puxá-lo, sugá-lo.

Expulsou-o. 11:00am ouviu-se algures do além num som rouco, desconhecido, aterrorizante.

Atordoado. Perturbado. Desnorteado. Assustado. Confuso.

Desalojado. Esfomeado. Agredido. Abriu a boca e deu liberdade aos pulmões para o mais sonoro protesto que alguma vez patenteou.

AAAHHH finalmente um pequeno-almoço! Diferente do habitual. Uma outra consistência. Um novo paladar. Num recipiente macio que lhe inundava a boca. Acalmou. Deliciou-se. E quando os dedos suaves lhe acariciaram ternamente a face, esboçou um projecto de sorriso, cerrou os olhos e permitiu-se adormecer. Aconchegado no seio que o alimentava, envolvido no olhar que o tranquilizava e nos lábios que carinhosamente pronunciavam filho (um dia muitos anos luz transcorridos, haveria de alcançar o significado...).

Talvez não seja assim tão mau este novo mundinho... - sonhou.


FELIZ ANIVERSÁRIO, TERZO

12 de Setembro de 2009


08/09/09

Entrevista

- Sente-se...
- Sinto-me bem sim. Obrigado.
- Não.. sente-se por favor. Faça..
- Faço tudo o que o senhor quiser! Diga!
- Faça o favor de puxar a cadeira... Está assim tão..
- Excitadíssima!!! Possua-me!!
- Ia a dizer nervosa. Pela entrevista... mas que se fo**. Sente-se.
- ...
- E largue a cadeira, idiota. Sente-se aqui!

( Túrgido e erecto membro vislumbra e antecipa já o incomparável apocalipse de uma nova vida a começar. Ou duas, que eu sou apenas o narrador. Não vi contraceptivos..)

- Quer que engula?...
- Jamais. Nunca engula sapos no local de trabalho. Nunca admita desaforos.
- O Sr. director não acha aquele narrador tão estúpido?

( A porca... mas não poderei entrar eu na minha própria narrativa? Ela que diga outra, que vai ver... eu não engulo sapos! )

- Não gaja-que-já-estás-contratada-e-que-começas-amanhã-o-que-já-começaste-hoje. Ele é mesmo assim.
- Amanhã começarei o que comecei hoje. Mas aquele narrador não pode estar aqui outra vez. A chamar-me apocalipse.. onde já se viu...

( Queria dizer Apóscópula.. apóscópula tens a vidinha feita. Que a leves a direito e que o saibas sempre endireitar )

06/09/09

Balada triste naquele modo que já não existe

« Somos assim um do outro há dois mil anos ou quase, saboreando o tesouro da eternidade do auge.. »

Fomos assim um do outro, ainda hoje e era tarde, fazendo do nosso auge a nossa eternidade. E porque hoje a um do outro, a um e outro hoje pertencemos, gritando os segredos e murmurando o que deixamos a outros pertencerem. Porque tu marcaste com as tuas unhas, o teu poema ( eterno ), gravando no meu corpo a tua marca de insanidade, de demência, de loucura permanente. E quem te sente assim dirá um sim terno, responderá ao teu poema ( eterno ), ainda com mais ânsia que tu, ainda com mais vida - que percorre, onde não é só vida que em ti escorre, na esponja em que te transformei - ainda com mais furor de enfim responder ás tuas marcas, nesses nós que desatas, dessas pulseiras que são algemas porque te deixam prostrada e cativa. Respondo-te com saliva. De poro a poro, de pólo a pólo, vem agora ao meu colo, vem-te agora no meu colo, porque isto é furor minha querida. Isso... fecha agora os olhos, ternura... desfalece, ainda amparada por mim... soluça que me amas, de olhos entreabertos. Já sem ânsia, mas ainda com mais vida. Já sem furor... mas agora falemos de amor, minha querida:

« De joelhos no tapete é afinal o Tempo, quem adora comigo a nudez que nos dás. E que é tão comovente. E que é tão como o vento. Porque a passa a correr e nos faz soluçar.. »

Soluço por ti em cada nó que desatas, em cada fantasma que matas, seja o nó de uma pulseira ou um qualquer fantasma por inventar. Seja a história verdadeira ou pura invenção - de fantasmas e crocodilos que voam ao luar, de monstros que estendem os braços gerados em árvores, só para te agarrar - sejam fábulas ou fantasia... só contigo eu concebo magia e por ti ( só por ti ) poderei repetir até á exaustão a primeira pessoa do singular. Do verbo amar.

05/09/09

that's why

“Um dia…

Há muitos e muitos anos luz, quando ainda não existia terra e nem mar, ela ziguezagueava por entre destroços de nada e tudo.

O céu escurecera como breu, quebrara-se em pedaços cadentes.

Atemorizada tentou esconder-se por trás de coisa nenhuma, por baixo de si mesma.

Sabia, sentia, adivinhava, que iria morrer espalmada, sob aquele outrora azul.

Não gritou, não esbracejou, nem chorou, só tremeu.

Outro dia…

Há muitos e muitos anos luz, quando ainda não existia paraíso e nem inferno, num tempo de ninguém, ele sorridentemente se arvorava em anjo de diabo, ou diabo de anjo.

Sem rosto, sem voz, sem nome.

Serenamente viajava pelo espaço transparente”



E mais um dia…

Eram assim um do outro há dois mil anos ou quase, saboreando o tesouro da eternidade do auge.

No sufoco do tempo que os separa, na ânsia do abraço que trocam, na sofreguidão com que se beijam, no carinho com que se exploram.

Nas palavras que calam, nas outras que proferem, nos erros que cometem e nos momentos inolvidáveis, eternos como eles, tão ternos como eles…

Com rosto, com voz, com nome.

Viajam serenamente na agitação que os assola, os derrete, os queima e os une…

como nós apertados em pulseiras, há dois mil anos ou quase…



that’s why I’m gonna spend my life with you



03/09/09

há momentos...

... que suplicamos à vida não nos roube à memória…

Outros há que imploramos nos deixe esquecer…

Mas uns e outros são, no fundo, a nossa vida,

A nossa razão de ser…

Somos nós…

Nós…

Como nós de pulseiras…


...


como putos

Mas afinal… Porquê?

Boa pergunta...

É mais bonito que os outros?

Talvez só nos meus olhos...

É mais sábio?

Não tenho a certeza...

É mais inteligente?

Não lhe medi o QI.

É mais charmoso?

Talvez sim, talvez não...

Mas então o que tem de tão especial?

Nada! Tudo! Sei lá!

Mas então… porquê?

:) olha, sabes aquela resposta que os putos dão quando são pequenos: porque sim! (ou porque não!) E tu perguntas: mas porquê? E eles repetem: porque sim! (ou porque não!) Eles não conseguem explicar mas eles sabem, não encontram razão, não sabem as palavras mas eles têm a certeza que sim (ou que não)!

Há sentimentos que são assim como as respostas dos putos: porque sim!! (ou porque não!!)



e ama-se porque sim!
(ou porque não?!)


30/08/09

Vou contar-te uma história, uma história...

Vou contar-te uma história, uma história de arrepiar, que começa naquele céu escuro como breu e termina no fundo do mar. Quando as estrelas eram brilhantes e na terra habitavam gigantes, rasgou um dia o etéreo tão distante um pequeno cometa escarlate, vagabundo e errante - escarlate escuro que cegava - mas distante, tão distante, que nenhum gigante o apanhava. Sorria, o cometa, pássaro de fogo a dançar. Melodias que só ele conhecia, porque na terra não havia poesia nem violinos a chorar. Mas naquela curva mais acentuada, perigosa porque desconhecida, o cometa escarlate, que de tão feliz ficou rosa - imagem mais colorida - contemplou um súbito azul, intenso e resplandecente. Parecia mesmo aquela estranha estrela cadente, que encontrou noutro universo, noutro espaço em alguma vida. Era envolvente... e a curva perigosa - porque desconhecida - uma vez mais não foi vencida. Porque o escarlate, agora rosa, quis conhecer o azul que o fascinava, e evitando aquela estrada, mergulhou numa louca descida. Pássaro de fogo a criar poesia, numa terra que desconhecia, assustando gigantes que grunhiam... « ele está a cair... nada será como dantes »... naquela descida nem sentia o frio ( cortante ) porque lançava um desafio á própria vertigem que era constante. A terra encolhia apavorada, os gigantes fugiram em debandada, e só o Azul que o aguardava parecia acolhê-lo e sorrir... O primeiro toque, a primeira posse, caído enfim o cometa escarlate naquele azul tão intenso.. o frio que era imenso, logo logo desapareceu. Lentamente, o cometa, olhou para cima e despediu-se do céu. Seu era agora o Azul... um mundo inteiro por descobrir. Seu era também porque o acolheu a sorrir. E nada ficou como dantes, naquela terra onde habitavam gigantes. Onde um certo dia, uma queda vertiginosa gerou a poesia. Onde mãos hábeis nasceram e fizeram violinos chorar. Porque do céu caíste para as águas, para ali seres apenas chamada menina amada ou estrela do mar.

29/08/09

não conheço sapatilhas que se movam sozinhas...

Mãe, eu não deixei cá as minhas sapatilhas brancas?

Sim…

Mas não estão no armário…

Elas não andam sozinhas.

Ok ok onde estão?

Varanda…?

Mãe isso já foi no fim-de-semana passado!

É bem provável…

MÃEEEE

Sim…?

As sapatilhas têm os atacadores estragados.

É bem possível, elas não andam sozinhas mas as gatas sim, filho, com a agravante que têm dentes e garras.



28/08/09

...










Gosto da paz das minhas paredes. Da tranquilidade do meu silêncio.

Refresca-me.

Conforta-me.

Gosto da copa da árvore por onde passam frechas de luz cintilante.

Que me tranquilizam.

Aceitam.

Gosto do brilho do mar e dos golfinhos.

Atraem-me.

Acalmam-me.

Ensinam-me…

Golfinhos…

Sempre gostei de golfinhos…


26/08/09

TV Take II ( Ou parte em 2 )

Discordando da minha ilustre companheira de letras, e sabendo que ao fazê-lo corro o sério risco de ter que concordar e dar-lhe razão mais tarde, sob ameaça de qualquer objecto aguçado e pontiagudo ( aqui a imaginação é livre... utilizem-na mas sorriam por favor ) devo afirmar que eu não consigo (sobre)viver sem TV. Poderia invocar razões religiosas, como a extrema necessidade de assistir ao « Fátima pela manhã ». Razões culturais, como assistir ao extremo bom gosto expresso na construção da grelha de programação. Razões sentimentais ( se existe algo neste mundo que me faz chorar ainda são as mensagens que correm, flutuam, rodopiam e voam em rodapé do Aníbal a procurar o Tó Nando que não vê desde Angola 69, quando ambos pertenciam a um batalhão de caçadores (?) ). Mas não. Eu não vivo ( esqueci-me do sobre ) sem TV apenas e só porque... prejudica-me a saúde. E a sanidade. Não sei se é o mesmo, mas uma das maiores ambições da minha existência sempre foi juntar saúde e sanidade na mesma frase... apresentá-las assim, de uma forma não forçada... ver como reagiam... Mas esqueçamos a insanidade e falemos de saúde, mais propriamente da que estou condenado a perder se não tiver TV:
- TABACO: fumo muito sem TV... estranhamente, deito-me na cama e passadas duas horas sinto uma estranha vontade de fumar. Serei um adicto, mas convicto. É que os meus olhos reviram e vou sempre a arfar procurar o cigarro consolador ( idem aqui para a imaginação livre, mas sem sorrir. Por favor. )
- PARANÓIA: com o tecto do quarto. Normalmente e ainda com as pálpebras a revirarem ( sim! as pálpebras reviram!! ) fixo cada pormenor do tecto. Contei 2019 espacinhos entre a tinta e já sei que o candeeiro precisa de um leve toque para se endireitar ( ok, estou a exagerar com a imaginação livre.. sorriam, riam, e sem favores..).
- TUGUISMO: Doença caracteristica no bom português, manifestada pela extrema afabilidade em dar indicações a qualquer estrangeiro. Sem TV, perco muito tempo a balbuciar « vai ».. « vem »... num constante vaivém... ora a primeira coisinha que o meu neurónio se lembra assim que volta para a sociedade é indicar, com um sorriso distante, ausente, parvo mesmo para estragar a imagem poética, todas as direcções a qualquer meliante estrangeirado. Exemplo: Para a Gulbenkian? VAI em direcção á Praça de Espanha, AGORA se quer ir ao El Corte Inglés, FORÇA.. mas é bem MAIS RÁPIDO começar pela Gulbenkian. De nada. DÁ-ME PRAZER ajudá-los.

Chega... ofereçam-me uma TV...

Mas FOI TÃO BOM desabafar...

24/08/09

tv

cada vez me convenço mais que não tenho vocação para tv...
aliás a tv também não tem muita vocação para mim...
e os programas também não parecem ser aliciantes...
prova disso é que... pifou!
era uma vez uma tv...
ora, que se dane, há coisas para as quais tenho muito mais vocação!
há coisas que têm muito mais vocação para mim!
há coisas muito mais aliciantes!
e que não pifam!!!!


:)


17/08/09

ao vento... por um tempo...

Fechou a janela para que o vento não entrasse. Ou o tempo não saísse…

Sentou-se no cadeirão. Aquele. O tal. Recostou-se de cabeça reclinada, o cérebro ausentou-se.

Passou tanto tempo… aprendeu ao longo dos séculos a esconder sentimentos. Camuflá-los. Abrigá-los de tempestades. Demorou. Penou. Mas aprendeu. No sufoco da lágrima que não escorreu. No silêncio da palavra que não proferiu. Na ausência do acto que não aconteceu. Agora… o grisalho da barba cobre-lhe a face e a nuca. As mãos enrugadas agarram o copo. Vazio. Agora… será tarde demais para reaprender. Habituou-se. Habitou-se naquele espaço só seu, onde monstros estranhos se baloiçam em amena dança singular, que só ele vê.

Agora… o tempo passou. Marcou… o tempo. Sempre o maldito tempo…

E ele daria a vida por um momento…

Lá fora, o vento…



15/08/09

Gritos

Do mundo e de ti nada sei. Conheço estes recantos onde por vezes passeio e pasmo. Estou em permanente descoberta e nunca me ensinaste a parar. A meditar. Ensinaste-me a caminhar. Habitar. Eu quis ser moldado e esculpido por mãos ágeis e sapientes - e contudo quentes, a ferver - quero ser amado e temido, fazer do teu silêncio um gemido e gravar-te com a saliva, por ti amada e temida nesta raiva tão incontida de ser crente no teu querer. É neste mundo por ti criado, onde por vezes passeio e pasmo, que me perco só para me perder. Mas do mundo e de ti nada sei.

Gosto de escrever-te. Enquanto caminho contemplo estas paredes nuas - tão tuas - e ( desculpa ) decoro-as com palavras sentidas e consentidas - e contudo quentes, a ferver - e todos os desenhos que me identificam só revelam um castelo inacabado em que as ameias são de ternura e as muralhas são de vida. A meias, a ternura. E uma vida em muralhas onde outrora contemplava batalhas que agora terei que travar. Mas só me concebeste para ganhar... E só me tens por te amar.

13/08/09

silêncios

Não me peças para falar, não me obrigues a calar. Não me faças morrer no que não quero reviver. Não me atormentes, não me perturbes, não me abanes a tranquilidade. Não me quebres, não me partas, não me abras as fendas coladas. Não me imponhas, não te anules. Não te fundas em mim. Não grites, não repitas, não te embriagues em palavras inúteis. Como ébrio impotente. Basta-te ser, basta-te estar, basto-me assim no silêncio inebriante de quem sente. Em paz. Sem falar nem calar.


08/08/09

Escarlate

Vesti-me de escarlate, a teu conselho. Velho.. mas figura. Perdura o corpo, outrora morto. Renasce e levita com o facto de ser escarlate. Porque é vida que se abre. Tal como a velha porta onde um dia te convidei a entrar. Mas rangia e era delatora. E tu assustada, parecias-me assustadora. A porta não era escarlate. Era um simples latão que um dia pintei de dourado. As tuas pinturas, abaixo descritas, só me recordam que há pinturas a ser escritas e em telas escrituras. Porque nelas, perdura. A alegria e o sorriso, a cumplicidade que lembra que é preciso caminhar. Habitar. Habituei-me á minha porta de latão que um dia pintei de dourado e, como sacrilégio e pecado, do latão dourado fiz fortaleza na ínfima certeza de um dia me reconhecer, como noite a desaparecer, como estela cadente, porém consciente, que outra estrela irá nascer. Só se perderam ramos pelo caminho... uma raiz forte nunca se abate. E sabes... tenho carinho por este fato escarlate.

07/08/09

pinturas

Partes giras de pintar a casa:

- estes gajos brincam mais cóquepintam

-guerra de tintas é buédafixe

- nariz pintado dá-nos um ar divertido

- nunca tinha feito desenhos nas costas de outrem…

- Não sabia que as gatas tinham jeito para pintura rupestre pelo chão

- meter o pé na lata da tinta ao sair do banho… não tem piada (por acaso até tem…)

- As cervejas estavam bem geladinhas


Partes chatas de pintar a casa:

- isto parece uma feira e nunca mais acaba

- calha-me sempre a mim limpar a javardice

-aquele laranja choque só lá foi à pistola... não há nada que uma boa arma não resolva

- as alergias saltaram todas e a voz foi-se


Partes estranhas de pintar a casa:

Chamarem-nos malucos só porque quisemos 1 parede preta…

- chamarem-nos doidos só porque a nossa casa não obedece aos gostos dos outros…



01/08/09

Eu sou capaz de revirar o mundo. Pontapear a nuvem. Eu sou capaz de agarrar o sol e esmiuçar-lhe o avesso. Agitar as águas no mar, acalmar a vaga, agarrar a onda. Eu sou capaz de puxar estacas, plantar árvores. E arrancá-las pela raiz. Sou capaz de atingir a velocidade da luz para derrubar barreiras. Ultrapassar-me e não me deixar deter. Sou capaz de voar ao cume da montanha. E do sonho. No sono. Eu sou capaz de gritar tão alto, tão forte, até ensurdecer. Perder a voz pela razão. Porque a minha vontade me faz nascer, renascer, viver. E tornar-me imortal. Eu sou capaz de expulsar, evadir-me, até de mim. Entrar-me pelas entranhas até ao mais profundo eu. Eu sou capaz de me revoltar, fazer calar, cegar, emudecer, na mais pura surdez de quem quer vencer. Eu sou capaz de caminhar sobre a Lua, sobre Marte, sobre Vénus. Sobre o fogo que arde. Sem se ver. Eu só não sou capaz (não quero, não posso, não sei...) de me perder…


de mim



27/07/09

313.09N

Deu-lhe imagens de ternura, qual Colombina e Arlequim. De desejo, de carinho, da paixão que sufocou.

Nessa noite choveram sorrisos. Sorrisos de riso em olhos de água. Na sede que não saciou.

Deu-lhe imagens ocas, vazias, sem dó, que devorou, consumiu, arrecadou.

Nessa noite trovejaram raios. Iluminaram-se os céus de relâmpagos estridentes. Enlutou.

De olhos cerrados sonhou. Voou como pássaro liberto em céu aberto. Vagueou.

Sem futuro, sem além, sem o dia após a noite. Guardou. Fechou a cadeado. Calou. Silenciou.

Acorda Colombina nos braços de Pierrot roubado a Arlequim.

É sonho?

Não!

É onda errante em mar submerso do azul estrelado, num castelo inacabado na areia de mim.

E de ti…


“I dream of rain
I dream of gardens in the desert sand
I wake in pain
I dream of love as time runs through my hand

I dream of fire
Those dreams are tied to a horse that will never tire
And in the flames
Her shadows play in the shape of a man's desire”



24/07/09

quando não importa que sejam parvas, porque já nada importa...