10/11/09

Acontece...

Dos castelos colhe as pedras polidas pelo tempo, dos sonhos exclui os pesadelos gastos na almofada, na memória arruma as lembranças em baús com bolas de naftalina para que as traças não as corroam. Na praça pública silencia as palavras ocultas por espessos véus e (a re) volta ao abrigo que avalia como refúgio de tempestades. Calmante. Tranquilizante. Ou…

Contornos ocultos de verdades debilmente veladas, feitas de obscuras realidades (des?) mentidas, em amálgamas de afirmações, em rebuscadas frases estudadas, repetidas, gastas, entroncadas em raízes mal cuidadas. Desfloradas, ou…

Indagada a alma retorcida, escondida no corpo contorcido. Violado. Violada. Perde-se. Reencontra-se. Aconchega-se à força de(vol)vida. Esfuma-se no maço consumido. Ou…

Regressa à galáxia perfeita da imaginação sobrevoando a felicidade sem lhe tocar. Quebra-se o feitiço como quem quebra uma garrafa (isso não). Enchem-se os pulmões de gases tóxicos a colorir o preto e branco da nuvem em que se senta sem reflectir que o amor não é para ser palrado, mas acarinhado. E a criança mimada esvoaça como pássaro engaiolado nas próprias asas desfeitas, numa liberdade fictícia, ilusória, desperdiçada, ou…

Regressa a serei ao oceano onde as pérolas que lhe brotam dos olhos se desfazem nas gotas da maré. Reconhece as escamas perdidas, as barbatanas feridas. Os nós apertados da corda que lhe sufocou as guelras numa terra onde o líquido é opaco, viscoso, infectado. Nas profundezas da água límpida lava o corpo como quem desinfecta a alma e deita-se na concha que se fecha como encerrada foi a magia, ou…

Afogam nas areias movediças da praia, a saudade. E perdem(-se) no interior da sua própria voz. Ânsia abafada. Num tempo que se esgueira da palma da mão. Ou...

Perdura a ilusão. A confusão. Atroz paixão. Quiça quimera. Mórbida esperança. Fantasia. Utopia. Ou…


...


26/10/09

a caminho da civilização

Gosto. É claro que gosto. Atrai-me sobejamente. Cativa-me. Extasia-me.

E invejo. É claro que invejo a capacidade de intolerância - não me apetece chamar-lhe estupidez, seria demasiado cruel (cruel?). ahhh que crueldade a daqueles que ainda se encontram em fase de aprendizagem. Ignorantes. Inoperantes.

Gosto, é claro que gosto da eficiência de uma boa buzinadela. Desentope o caminho em menos de nada. Não? Ahhh pensei que sim. Mas pelo menos poupa-me o rádio do carro, posso desligá-lo e ficar apenas com a melodia (?) vinda de fora. Aaahhhh que calmante. Tranquilizante.

Tranquila, observo o arrancar estridente. Ai como eu gostava de ser exímio volante. Galgar passeio, roçar o ventre do transeunte, sem atrapalhação, sem hesitação. Passar a milímetros do L sem o (se) esmurrar. Suicidar. Ser o maior. Que grande (mesmo que não seja grande coisa). E quase esborracha a criança na passadeira que com o puxão da mãe se estatela no chão. Raios parta, porque chora o miúdo? Devia era tê-lo morto que há população a mais na cidade. Assassino? Nãããã, impressão minha.

Quero ter a mesma raiva dedicada ao pobre infeliz que no meio da atrapalhação de não nascer ensinado, deixa o carro ir abaixo à entrada da rotunda. Devia saber conduzir na perfeição mesmo antes de se inscrever na porcaria da escola de condução.

Olho o relógio, vinte para as nove. Devia ter deixado a cama mais tarde. Conseguiria agora irritar-me, gesticular e desenvolver o meu dicionário insólito de palavras enternecedoras como “cabrão”, frases amáveis de “filho da puta”.

E quando finalmente arranca o tal veículo L (L de lição? Quem sabe nº 1.. ai não deviam existir lições nº 1. Maldição), passo-o enquanto observo enternecida (que estúpida) a carinha corada do jovem ao volante. “calma, rapaz, aposto que daqui a uns meses já com documento comprovativo de doutoramento de parvalhão, serás tão insigne condutor, notável ameaçador, distinto reprodutor de insultos absurdos. Tem calma rapaz. Tem calma, já falta pouco para seres mais um famoso acrobata e eu só lamento não ter sabido neste momento, formar na perfeição mais um distinto instinto assassino.” Ahhhh quem me dera ser tão boa formadora (formar? Mas quem me autoriza a formar? Deformar. Deformado como o anormal…) como o anormal que me atrai sobejamente, me cativa me extasia do pedestal da sua sabedoria na vasta intolerância – porque não me apetece chamar-lhe estupidez – perante quem ousa tentar aprender porque ainda não sabe ser um deformado perfeito anormal. Civilizado. Aaahhhh como eu gosto desta civilização. Atrai-me. Cativa-me. Extasia-me.

Ai que belo começo de dia. Que bom humor macabro. Que bem me faz esta santa barbárie. Quão civilizados somos. Uau!



24/10/09

per te... e per me...

Vês a lua lá longe? Intocável.

Não quero ser uma lua intocável…

Vês os monstrinhos nas árvores? Pirilampos. Cisne do rio.

Como parte de mim. De ti? Não quero agarrá-los, apenas admirá-los…

Vês as pedras do castelo? Umas sobre as outras.

Num equilíbrio permanente. Premente. Não quero derrubá-las…

Vês as estrelas cintilantes no céu escuro? Vês o relâmpago na noite calma? Vês o vermelho do Sol que se esconde?

Vês-me?...

Observo-te enquanto dormes. Olho-te acordado. Examino-te os contornos. Oiço-te as palavras. Penetro-te o olhar em busca de certezas. Nada é certo. Assustam-me as faíscas. Temidas…

Espio-te os sentidos. Sentimentos. Espreito-te. Observo-te. Reconheço-te. Conheço-me. Admiro-te as mãos…

Percorrem-me o corpo como exploradores em mares desconhecidos. Tornam mágicos os momentos. Em movimentos. Adoçam o olhar, aquecem a pele, abrasam-me como brasa de lareira. Penetram-me como flechas de cupidos. Sentidos…

Não são mãos de deus. Não são mãos de dono. Não são mãos inquebráveis. Razoáveis. De razão. A tua e a minha. Razoáveis. Como tu e eu…

Vês a lua lá longe? Intocável. Só quero vê-la…

Vês os monstrinhos e o cisne. Mais ninguém vê. Só quero que vejas… só quero vê-lo…

Vês o castelo a balançar? Não ruiu, não quebrou, não desmoronou. Só quero abrigar-me. Segurar-me…

Vês? Vês-me? Só quero que nos vejas…

Quero. Quero-te. Mas mais que tudo quero-me…



contigo...


18/09/09

"Pedaços de nós"

Há momentos que nos marcam para sempre, como há pessoas que ao cruzarem o nosso caminho o tornam irremediavelmente diferente, mas também há espaços que nos colam como lapas. Que mesmo que quiséssemos não seriamos capazes de abandonar ou esquecer. Não? Esquecer… Recordar… Perpetuar … as voltas que uma memória dá… pedaço a pedaço... como pedaços de nós.

PARABÉNS Å®t

obrigada...


12/09/09

11:00am há dois mil anos ou quase...

Como se tornara hábito nos últimos meses, lá estava ele comodamente instalado no seu ninho inundado de líquido e ternura.

Cruzou as pernas, espreguiçou-se tocando com a ponta dos dedos a parede da cavidade que o envolvia. A casa já dificilmente suportava o seu tamanho. Nem se apercebera como crescera desde que minúsculo ali se alojara.

Olhou em redor, ninguém. Mais uma vez não havia ninguém. Já começava a fartar-se daquele mundo solitário onde nem uma alminha lhe dizia bom dia, nem um parceiro para jogar uma cartada, nem um amigo para o acompanhar numa bebida gelada nos dias quentes. E bebida não faltava por ali. Tudo era fluido excepto aquele cordão, espesso, comprido, que o ligava sabe-se lá onde, mas que lhe era vital.

Hoje curiosamente o cordão incomodava-o. As paredes pareciam comprimir-se, apertavam-no como se o sufocassem. As águas agitavam-se como marés vivas em oceano tempestuoso E o pequeno-almoço não havia meio de chegar…

Vasculhou em redor. Nada. Procurou mais acima. Nada. Deitou-se mas continuava desconfortável e a fome apertava-lhe o estômago. Chuchou no dedo polegar, o mais gordinho da mão esquerda. Esticou os pés até sentir a resistência sólida da parede. A ondulação fê-lo balançar sem ponto de apoio seguro. Rebolou numa cambalhota desequilibrada e viu o seu ninho de pernas para o ar.

Repentinamente, a água escoou como se alguém tivesse aberto um ralo ou furado um balão. Mais rápido. Cada vez mais rápido. Alguém estava a roubar-lhe o seu mar. Alguém invadia o seu habitat. Quem se atrevia? Que queriam dali? Escorregou levemente e descobriu a pequena frecha. Espreitou. As paredes comprimiram-se fortemente como que a expulsá-lo da sua própria toca. O seu mundo tornou-se pequeno, ínfimo, insuportável. E a luz intensa que o fitava através da ruptura pareceu atraí-lo, puxá-lo, sugá-lo.

Expulsou-o. 11:00am ouviu-se algures do além num som rouco, desconhecido, aterrorizante.

Atordoado. Perturbado. Desnorteado. Assustado. Confuso.

Desalojado. Esfomeado. Agredido. Abriu a boca e deu liberdade aos pulmões para o mais sonoro protesto que alguma vez patenteou.

AAAHHH finalmente um pequeno-almoço! Diferente do habitual. Uma outra consistência. Um novo paladar. Num recipiente macio que lhe inundava a boca. Acalmou. Deliciou-se. E quando os dedos suaves lhe acariciaram ternamente a face, esboçou um projecto de sorriso, cerrou os olhos e permitiu-se adormecer. Aconchegado no seio que o alimentava, envolvido no olhar que o tranquilizava e nos lábios que carinhosamente pronunciavam filho (um dia muitos anos luz transcorridos, haveria de alcançar o significado...).

Talvez não seja assim tão mau este novo mundinho... - sonhou.


FELIZ ANIVERSÁRIO, TERZO

12 de Setembro de 2009