06/05/09

uma questão de tempo

Não te preocupes com isso, tens tempo quando cresceres, dizia o pai.

Para quê essa corrida, tens tantos anos à tua frente, reforçava a mãe.

E ela acreditou, convenceu-se que assim era. Tinha muito tempo para viver!

Passaram dias, semanas, meses, anos. De repente, sem pré-aviso, sem ao menos um sinal, viu o tempo futuro escondido. Perdeu-se a memória do tempo passado. Deixou de ser dona do tempo presente.

Desalmada, tresloucada, sôfrega, tentou agarrá-lo, puxá-lo a si, abraçá-lo, numa ânsia intemporal de quem sente o tempo escassear. Sem tempo a perder, valeu-se de todas as armas que o pouco tempo lhe dava. Aproveitou cada milésimo de tempo do tempo que viveu. Arriscou cada minuto, fosse qual fosse o tempo a chegar. Lutou desenfreada contra a falta de tempo. Apanhou todas as migalhas do tempo roubado.

E percebeu. Finalmente, percebeu a importância do tempo que se não tem, quando uma porta se abre permitindo ao tempo fugir. Agora… afaga o tempo que tem como se não tivesse tempo, sem esperar que o tempo venha, não vá o tempo desistir de chegar a tempo e então… perder o tempo, como aqueles que o não têm.


04/05/09

juntando as letras, como diz o meu amigo

Abriu a boca o A de amor para reclamar a si a majestade.

Ripostou de imediato o V de vida como senhor de toda a riqueza.

Apressou-se o M de mãe a puxar a si o início da vida.

Logo surgiu o F de filho a impor-se como mais importante.

Nisto vem o S de sonho como mentor da caminhada.

Corre eufórico o A, de novo, que é dono da amizade.

Insurge-se o V que também é de valor.

Poderoso o M recorda que é de morte.

Nisto canta o F de felicidade.

Sorri o S de sentimento,

Com o quente C de carinho.

E quando todos enleados na discussão da mais valia, eis que chega a frase que junta todas numa só. E é nesse preciso momento que as palavras se lhe embrulham, misturando todas as letras na emoção do que sente.

Quando as letras das palavras construindo frases que anos a fio foi lendo a rir para avançar, esquecer a dor, o cansaço, o medo e o pânico… aquele pânico que escondia nas letras que escrevia, abafadas pelas palavras que lia, afastando-lhe o espectro da morte, sorrindo-lhe num imenso sentimento de carinho que lhe povoava a felicidade. Em letras sem corpo, palavras sem nome, frases sem rosto.


quando Maria e Cleo ganharam rosto. obrigada :)


01/05/09

o tempo escasseia...

vou ali
depois vou ali
ainda quero ir ali
e ali
e ainda tenho de arranjar tempo para isto (que é super importante)
e isto
e...
dá para prolongar mais um bocadinho o prolongado fim de semana?

24/04/09

o que não esquecerei

"Quanto tempo passou?

Fui olhar-te, recordar-te, agradecer-te, admirar-te; lá, na espuma do mar, nas ondas batidas, na água salgada, onde tu gostavas de viver.

Foi há tanto tempo, não foi?!

Tinhas aquelas ideias malucas que ninguém entendia, aquela forma peculiar de ver o mundo, aquele olhar mais longínquo do que o nosso e um espírito indestrutível.

Teve consequências?

Teve! Foi confuso, foi duro, foi difícil, foi injusto!

Depois?

Depois naquele dia escuro solarengo, veio a esperança, o sonho e a nossa liberdade.

Perdurou?

Não tanto quanto imaginávamos e desejávamos… mas posso, pelo menos, estar aqui a falar contigo… sem medo, sem pensar no que vai acontecer depois, sem recear quem vem invadir a minha casa.

Foi duro?

Foi! Mas não lamento nem um milímetro daquele sofrimento porque ele me recorda o teu corpo machucado, as tuas feridas, as marcas; mas com ele recordo também a tua força, a tua persistência, a tua cabeça erguida, sempre, o teu sorriso, a tua vontade indomável, a tua voz doce e o teu olhar firme.

Sabes?...

A tua história passou de boca em boca aos nossos filhos e eles sabem-na de cor e repetem-na e vivem-na, com a mesma intensidade que nós. Há homens como tu que se transformam em ídolos e nunca morrem e se mantém para orientar a nossa vida.

As marcas que deixaste em mim (em nós) são tantas, mas deviam ser tão fortes, que conseguissem fazer os nossos olhos verem tão além quanto os teus…"

(Abril 2006 ou 1974 ou 2009 e sempre)


As histórias não se repetem, nem se eternizam, recriam-se, não é?!

Sabes... Sabes? Sabes.

É que deste-nos uma coisa nova e ainda não aprendemos a usá-la.


(mas vamos aprender, não vamos?!)