08/02/09

la differenza di un minuto...

Dormias quando te conheci, embrulhado no lençol, de mãos entrelaçadas como se entrelaçam almas…

Abrasei-te a alma e vi em teus lábios um esgar de sorriso, daqueles que só se esboçam quando sonho…

Sonhei-te enquanto jogávamos às escondidas e ao apanha-me, no túnel de uma cabra-cega que nos toldava a vista…

Vi-te, no hilariante cansaço do dia após dia, todos iguais, tão diferente quanto podias…

Pudesse eu quebrar o feitiço daquela não magia que te obrigava a dormir quando me despedias…

Na despedida tardia, por um telemóvel sem bateria, que me atrasou no espaço de tempo da tua alma adormecida…

Como num minuto…

Só mais um minuto…


...


04/02/09

gosto refinado

Se há coisa que prolifera na internet, são os desafios. Reproduzem-se que nem hamsters, numa variedade infindável, de todas as maneiras, feitios e qualidades.

Eu, que até gosto de desafios, mas não desses, fujo deles como diabo da cruz, se bem que nunca entendi esta expressão. Hoje, numa excepção, porque sempre ouvi dizer que a excepção confirma a regra e eu pretendo confirmar esta, decidi aceder ao desafio, que não partiu de ninguém, além de mim mesma e a ninguém será passado.

Coisas que gosto…

Gosto! Gosto realmente muito, de pessoas emproadas que nem galos da índia, detentoras da verdade. Gosto daquelas pessoas que nunca erram, não têm dúvidas e ostentam um porte altivo qual sumidades. Gosto! Atraem-me! Na sua opulência, magnificência, ornadas em geral de vasta arrogância, presunção e ostentação de uma futilidade, ignorância e falta de educação, que nem fazem questão de simular. É exactamente por isso que os admiro. Invejo-lhes a capacidade demente de se valerem da sua desmedida insanidade para, ao longo de anos a fio, percorrerem uma vida inteira na busca da arma perfeita, que usarão para dar o tiro certeiro no seu próprio pé. Quem mais teria tamanha habilidade para provocar tanta gargalhada?!


02/02/09

Não matarás...

Saiu de casa pela manhã, bem cedo, cabisbaixo, de lágrima a pender-lhe no olhar. Não queria. Decididamente, não era o que queria fazer. Mas era isto o que lhe restava fazer, numa vida tantas vezes a parecer injusta, cruel…

Desceu o elevador, colocou-o cuidadosamente, no banco traseiro e entrou no carro. Atribuiu ao cinto apertado o sufoco que sentia no peito e à chuva a visão enevoada.

O “adeus” quase inaudível que proferiu abafou-lhe o “perdoa-me” que não gritou, enquanto lhe fazia uma última festa, o último carinho, o derradeiro abraço. “Gosto tanto de ti e deixas tanto comigo”, sussurrou… e do outro lado, respondeu-lhe silenciosamente, o olhar mais grato que alguma vez viu…

Deixou a clínica veterinária cem anos mais velho e duzentos mais pobre… Decididamente não queria tê-lo feito, mas era o que tinha de fazer, porque o amava! Não, não era um assassino!


Na outra ponta da cidade, ela saiu de casa ao raiar do dia. Mecanicamente desceu o elevador, entrou sozinha no carro e percorreu a estrada atolada de carros, sentindo-se num deserto imenso. Entrou no grande edifício e subiu ao 4º andar, pelas escadas para ganhar coragem. Entrou na sala e interiormente agradeceu a penumbra que lhe disfarçava a lágrima. Olhou-o. Continuava prostrado sobre a cama, anestesiado para não sentir a dor. Já não falava, não comia, não sentia mais que aquele tormento que se arrastava como punição de um pecado que desconhecia. Mas o coração batia, força da máquina que o obrigava a vegetar. Quanto tempo? Quanto mais tempo iria viver? Viver? E num ímpeto, teve vontade de aceder ao que tantas vezes lhe pedira.

Deixou o hospital ao fim do dia. Deixou-o entregue àquele olhar suplicante que a matava a ela também. Decididamente, não queria deixá-lo continuar mas, curiosamente, só aos animais era possível interromper tamanho sofrimento e ela não era uma assasina!

...


Amava tanto a vida, que mais não lhe restava que a eutanásia!


um enorme beijo para ti...