Se há coisa que prolifera na internet, são os desafios. Reproduzem-se que nem hamsters, numa variedade infindável, de todas as maneiras, feitios e qualidades.
Eu, que até gosto de desafios, mas não desses, fujo deles como diabo da cruz, se bem que nunca entendi esta expressão. Hoje, numa excepção, porque sempre ouvi dizer que a excepção confirma a regra e eu pretendo confirmar esta, decidi aceder ao desafio, que não partiu de ninguém, além de mim mesma e a ninguém será passado.
Coisas que gosto…
Gosto! Gosto realmente muito, de pessoas emproadas que nem galos da índia, detentoras da verdade. Gosto daquelas pessoas que nunca erram, não têm dúvidas e ostentam um porte altivo qual sumidades. Gosto! Atraem-me! Na sua opulência, magnificência, ornadas em geral de vasta arrogância, presunção e ostentação de uma futilidade, ignorância e falta de educação, que nem fazem questão de simular. É exactamente por isso que os admiro. Invejo-lhes a capacidade demente de se valerem da sua desmedida insanidade para, ao longo de anos a fio, percorrerem uma vida inteira na busca da arma perfeita, que usarão para dar o tiro certeiro no seu próprio pé. Quem mais teria tamanha habilidade para provocar tanta gargalhada?!
Saiu de casa pela manhã, bem cedo, cabisbaixo, de lágrima a pender-lhe no olhar. Não queria. Decididamente, não era o que queria fazer. Mas era isto o que lhe restava fazer, numa vida tantas vezes a parecer injusta, cruel…
Desceu o elevador, colocou-o cuidadosamente, no banco traseiro e entrou no carro. Atribuiu ao cinto apertado o sufoco que sentia no peito e à chuva a visão enevoada.
O “adeus” quase inaudível que proferiu abafou-lhe o “perdoa-me” que não gritou, enquanto lhe fazia uma última festa, o último carinho, o derradeiro abraço. “Gosto tanto de ti e deixas tanto comigo”, sussurrou… e do outro lado, respondeu-lhe silenciosamente, o olhar mais grato que alguma vez viu…
Deixou a clínica veterinária cem anos mais velho e duzentos mais pobre… Decididamente não queria tê-lo feito, mas era o que tinha de fazer, porque o amava! Não, não era um assassino!
…
Na outra ponta da cidade, ela saiu de casa ao raiar do dia. Mecanicamente desceu o elevador, entrou sozinha no carro e percorreu a estrada atolada de carros, sentindo-se num deserto imenso. Entrou no grande edifício e subiu ao 4º andar, pelas escadas para ganhar coragem. Entrou na sala e interiormente agradeceu a penumbra que lhe disfarçava a lágrima. Olhou-o. Continuava prostrado sobre a cama, anestesiado para não sentir a dor. Já não falava, não comia, não sentia mais que aquele tormento que se arrastava como punição de um pecado que desconhecia. Mas o coração batia, força da máquina que o obrigava a vegetar. Quanto tempo? Quanto mais tempo iria viver? Viver? E num ímpeto, teve vontade de aceder ao que tantas vezes lhe pedira.
Deixou o hospital ao fim do dia. Deixou-o entregue àquele olhar suplicante que a matava a ela também. Decididamente, não queria deixá-lo continuar mas, curiosamente, só aos animais era possível interromper tamanho sofrimento e ela não era uma assasina!
...
Amava tanto a vida, que mais não lhe restava que a eutanásia!
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