Morreram quatro mineiros, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu... »
Isabel costurava... a velha máquina ainda trabalhava. Todos lhe diziam que era boa - é Singer, Isabel!! - como se o movimento repetitivo de um pé estragado pelo tempo, carregando furiosamente num pedal desgastado pelo uso, desse á sua companheira de sempre outro nome que não fosse Trabalho. Não é Singer, nem singela. É trabalho. Com quatro filhos a assoarem-se ás suas saias, com um homem colocado doze horas - dia sim dia não - no mais fundo poço da escuridão, Isabel costurava. E ia trauteando a velha canção...
« Oh Senhora Santa Bárbara
Padroeira dos mineiros, vê lá
Vê lá companheiro
Vê lá como venho eu... »
António arrancava terra á Terra. Sacrílego, profano... no mais fundo poço da escuridão, António com uma pilha á cabeça e uma singela - não Singer -picareta na mão, avançava e avançava, a terra á Terra arrancava, e quando a força já esgotada, lhe implorava uma pausa... António dizia não!! Tinha Isabel e quatro filhos. António ria-se só de recordar quatro pequenos diabos a assoarem-se ás saias da mãe. Que seja escura esta terra... de bom grado lhe chamarei Inferno! Que venha o próprio Belzebu... se me sento só descanso o cú!!! Mais umas horas e dispo as saias cheia de ranho da minha Isabel!! Ah... filho dum cabrão dum mineiro que a terra pariu mas não há-de enterrar! Nã senhora!! Amo tanto esta terra que a hei-de esgravatar!
Isabel ficou lívida...seriam duas da manhã ou outra hora qualquer.. parou o Tempo para Isabel e para outra qualquer mulher. Todo aquele povoado, por São Domingos abençoado ameaçava ruir. Nem Santa Bárbara - a tal padroeira - poderia evitar: abatera uma barreira!! Quatro homens soterrados!! Ainda há esperança, ainda há esperança... Quatro vidas enterradas... Quatro homens isolados!! Abateu uma barreira, Isabel. A barreira que colocará o teu filho mais velho nas minas que devoraram o seu pai. Deixa-o assoar uma vez mais nas tuas saias... desta vez não é ranho. São lágrimas.
Nas minas de S.João
Morreram quatro mineiros, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...
Eu trago a camisa rota
E o sangue dum camarada, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...
Morreram quatro mineiros, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...
Eu trago a camisa rota
E o sangue dum camarada, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...
Oh Senhora Santa Bárbara
Padroeira dos mineiros, vê lá
Vê lá companheiro
Vê lá como venho eu...
Padroeira dos mineiros, vê lá
Vê lá companheiro
Vê lá como venho eu...
Eu trago a cabeça aberta
La la la la la la la la Abateu uma barreira, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...
La la la la la la la la Abateu uma barreira, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...
Eu trago a camisa rota
E o sangue dum camarada, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu...
Oh Senhora Santa Bárbara
Padroeira dos mineiros, vê lá
Vê lá companheiro
Vê lá como venho eu...
3 comentários:
:)
0brigada
Um texto comovedor!
A vida Singer/singela e difícil como ela é.
ó minha Senhora Santa Bárbara, que até um devoto ateu e heretico tu comoves...
grato. gratíssimo pela cálida emoção que alimenta...
beijo
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